A edição desta semana da revista britânica NewStatesman vai entrar pra história. E não apenas pela maravilhosa capa…
O assunto da edição: Revolução.
O editor-convidado: Russel Brand, ator, comediante, ex-viciado em drogas e ex-viciado em compras. É piada então? Não, não é.
Contando com um longo e abrangente artigo do editor-convidado e contribuições de Naomi Klein, Daniel Pinchbeck, David Lynch, Noel Gallagher, Oliver Stone, Noam Chomsky, Deepak Chopra e David DeGraw, entre outros, esta edição tem o mesmo propósito que originou o Plantando Consciência: semear, regar e cultivar uma nova sociedade, baseada em uma nova consciência, fundamentada em um novo paradigma e direcionada a nada menos que um mundo mais vivo, igualitário, global, sustentável e pacífico.
Como? Ninguém sabe ainda. Mas há várias idéias e opções férteis por aí, e outras a serem criadas pela genialidade e criatividade humana, que são infinitas.
Como será? Ninguém sabe ao certo também, mas em entrevista Russel defendeu com sagacidade e humildade que já sabemos o que não queremos e como não deve mais ser:
Eis o que um sistema político NÃO deve fazer:
Não deve destruir o planeta;
Não deve criar disparidade econômica brutal;
Não deve ignorar os anseios e necessidades do povo;
Pra quem se declara interessado “na total revolução da consciência e de todo o nosso sistema social, político e econômico” já é um bom começo saber onde não se aceita chegar, pois pra navio sem rumo até o inferno é porto de chegada…
Em seu artigo, tecido com sinceridade cortante, o comediante desabafa o sufoco que sentimos: as democracias que temos não são as que queremos, o sistema não está funcionando e as eleições não cumprem seu suposto papel. Isto pois nem todas as opções estão disponíveis e porque os grandes assuntos e problemas não estão em questão nas votações. Independente do resultado das eleições, com os canditatos assumindo posições minimanente diferentes frente a problemas imensos, não haverá como solucioná-los, incluindo aí a massiva rede de corrupção, ganância, mentiras e acobertamento que tomou conta da política mundial. Ele não vota, e argumenta que esse é um começo, pois o voto dá uma falsa sensação de participação que gera apatia e legitimiza os líderes eleitos pelo sistema atual - que segundo ele deveriam ser concebidos como servidores, não como líderes.
Mas esta é a posição singular dele, compartilhada por alguns e contrariada por outros (assim como o expresso neste post é a minha singular visão, compartilhada por alguns e criticada por muitos). A edição, recheada com muito mais, deixa claro que a Revolução em curso e defendida na revista não é, definitivamente, a do “cortem-lhe a cabeça!” gritada pela rainha de copas. É a outra. Aquela que Alice encontra e vivencia ao longo de todo seu percurso no País das Maravilhas. É a revolução da consciência, a mudança em nosso modo de pensar e, fundamentado nele, nosso modo de agir e de nos relacionarmos.
Para Fatima Bhutto, poeta e escritora nascida em Kabul, a verdadeira revolução é muito anterior a qualquer definição sócio-política do termo: correta visão, correta intenção, correta ação, correto discurso, correto viver, correta mentalidade e propósito são os verdadeiros fundamentos da Revolução desejável neste ponto da história da humanidade.
Para o linguista e filósofo Noam Chomsky, não há como não definir a Revolução sem passar pela “transformação espiritual das massas, degradadas por séculos de regras burguesas”. Segundo ele, apenas pela total erradicação dos hábitos de obediência e servitude que as massas tomarão consciência da auto-disciplina. E esta necessariamente tem de vir da liberdade. Defende Chomsky que esta “transformação espiritual” criará, pela atividade espontanea das massas, formas de relação social fundamentadas na liberdade individual e na substituição das amarras sociais por laços sociais.
Deepak Chopra, definido na revista como Guru, concorda. Apesar de pouco compreendida, é a revolução interna que interessa. Mesmo que muitos digam não acreditar nela, ela está acontecendo, e independe de crença, pois é baseada numa experiência real. Experiência esta que ocorreu embaixo da árvore Boddhi ou no caminho para Damascus, e está silenciosamente ocorrendo agora em todas as partes. E para ele o fato de ser silenciosa é crucial, pois assim esta experiência não pode ser poluída, corrompida ou distorcida pela mídia. Em comparação a ela, a política é irrelevante, defende. Pois esta experiência permite que seres humanos sejam altruístas, pacíficos, compassivos, amáveis e interessados no sagrado.
E para Graham Hancock, um dos Hereges que aplaudi antes, a liberdade fundamental é justamente a liberdade de consciência, que nos é tirada pela Guerra às Drogas, que na verdade não é uma guerra contra substâncias químicas, mas uma guerra contra a consciência em sua totalidade. E é aí que um assunto aparentemente acadêmico e científico - o que de fato é a consciência - se torna político, pois a sociedade em crise é aquela que valoriza apena um estado de consciência em detrimento de todos os demais. Apenas a vigília atenta, solucionadora de problemas racionais e que nos torna consumidores e produtores de bens materiais serve. O resto declaramos ser caso de polícia. Mas nesse esquema, não somos nem poderemos ser adultos livres, pois não somos livres para decidir o que pensar e quais estados de consciência desejamos experimentar e vivenciar.
O autor Howard Marks concorda. O principal ponto da nova Revolução seria o desmantelamento imediato da insana e sinistra proibição do consumo de psicoativos e suas inevitáveis consequências danosas: proliferação do crime e sofrimento desnecessário.
Noel Gallagher, guitarrista do Oasis, discorda. Legalizar drogas como heroína pode ser um erro, mas descriminalizar os psicodélicos provavelmente será necessário para a evolução da humanidade. Seja como for, no presente proibicionista e no futuro incerto, ações de minimização de sofrimento são cruciais, e como fazer isto é o que mostra Liz Evans no artigo “A Visionary Approach to Addiction” (Uma abordagem visionária para o vício), em que traça o desenrolar de mais de vinte anos de redução de danos no uso e abuso de drogas em Vancouver.
Para Daniel Pinchbeck, autor de “Breaking Open the Head” e “2012: O ano da Profecia Maia“, criador do site Reality Sandwich e forte defensor e experimentador dos psicodélicos, a humanidade está no ponto definido pelo arquiteto e inventor Buckminster Fuller como “Utopia or Oblivion” (utopia ou extinção). Pinchbeck concorda com antecessores como Terence McKenna e declara que a atual sociedade é uma máquina planetária suicida para a qual o próprio termo Revolução não serve mais. Segundo ele, precisamos de algo mais próximo de uma metamorfose. E Russel Brand comemora: Revolucionário é rejeitar o termo revolução numa edição sobre isso!
De volta à revolução, Ai Weiwei, artista e dissidente, avisa: “A revolução é uma ponte que conecta o passado e o futuro. Ela é necessária, impredizível e inevitável”.
Após me deliciar com a capa e me divertir com a maioria dos artigos, não pude deixar de comparar a proposta coletiva com a jornada de Timothy Leary nos anos 60, sintetizada em seu famoso - e infame - slogan “Turn On, Tune In and Drop Out”. O que Leary pregava era nada menos que uma total revolução da mente e da sociedade pela sintonização em novos estados de consciência e pelo imediato e súbito abandono da sociedade. Mas se Leary e a revolução dos 60, em muitos aspectos, fracassaram, por que e como agora seria diferente?
A resposta, uma vez mais, encontrei com Aldous Huxley: “Sonhe de maneira pragmática.” Leary não foi pragmático, foi inocente na simplicidade e velocidade com que achou que uma mudança social poderia ser implementada baseada quase que exclusivamente em experiências psicodélicas. Confundiu a experiência mística - imediata e arrebatadora - com as mil e uma provações da vida espiritual - com todas suas contradições e provações para ser de fato implementada. Como disse Huston Smith, um dos maiores e mais importantes estudiosos da psicologia da religião: não basta ter uma experiência espirtitual, é preciso uma vida espiritual.
Mas Russel Brand, de sua zero autoridade acadêmica, científica e política, explicou bem o que é essa espiritualidade revolucionária, que não é apenas a espiritualidade new-age inocente e infantil de abraçar árvores e pensar positivo (apesar dele, e eu, fazermos ambos): “‘espiritual’ quer dizer que a conexão mútua entre todos nós e o planeta deve ser priorizada”. O oposto disto são o egoísmo e o individualismo que fundamentam o materialismo consumista que ameaça consumir a nós mesmos. Como disse o visionário Buckminster Fuller, o objetivo deve ser “criar um mundo que funcione para 100% da humanidade no intervalo mais curto possível através da cooperação, sem ofensa ecológica ou desvantagem para ninguém”. E, ao menos pelo artigo nesta edição da NewStatesman, Russel deixou pistas de que é mais pragmático que Leary, pois argumenta com clareza que o objetivo Fulleriano é um belo exemplo de “mais fácil falar do que fazer”.
Mas caso ele não seja pragmático, sejamos nós. Isto quer dizer que é possível fazer diferente, ao contrário do que dirão os conservadores chamando tudo de utopia e tentando desqualificar o debate, os debatedores e principalmente, a ação.
Neste sentido, os textos mais pragmáticos - logo, importantes - da revolução proposta na NewStatesman me parecem ser os de Naomi Klein e David DeGraw.
Naomi, ativista canadense, autora dos livros “The Shock Doctrine” e “No Logo”, autografa o artigo “Science says: Revolt!” (A ciência diz: Revolte-se!). A idéia do texto é apenas uma: incorporar os impactos do ativismo ambiental nos modelos científicos de estudo do clima. E não é dela. É de Brad Werner, pesquisador de sistemas-complexos na Universidade da Califórnia, que trabalha com pesquisa de campo e modelos sofisticados da superfície planetária e seus processos dinâmicos. Em congresso recente da American Geophysical Union, Brad entitulou sua palestra de “Is the Earth fucked? Dynamical futility of global environmental management and possibilities for sustainability via direct action activism” (Está a Terra fodida? Futilidade da administração ambiental climática e possibilidades sustentáveis pela ação ativista direta). Falando em congresso com mais de 24 mil pessoas, argumentou que, independente de visões políticas e ideológicas, é hora da geofísica incorporar aos seus estudos e previsões os impactos do ativismo ambiental. Segundo ele, esta é hoje a maior força contrária à destruição planetária movida pelo capitalismo globalisado. Em editorial na prestigiosa revista científica Nature, o filantropo ambiental Jeremy Grantham concordou: “urge que cientistas se unam à tradição ativista e sejam presos, se necessário for”. Para eles, há chances reais de evitarmos o desastre climático, mas não dentro das regras capitalistas atuais. Isso faz do ativismo ambiental uma espécie de força contrária ao “progresso” desgovernado que Terence Mckenna chamou há muito tempo atrás de “arma apontada para a cabeça do planeta”.
David DeGraw, por sua vez, parte para uma jornada de revolução da consciência através da revolução da comunicação global. Em seu artigo “A New Feudalism in the USA” (Um novo feudalismo nos EUA), o ativista do Occupy Wall Street e criador da metáfora do 1% contra os 99%, que percorreu o mundo e abriu uma nova janela na consciência da humanidade, escancara o problema em fatos e dados (que são complementados por dados e fatos políticos sobre os EUA no artigo de Alec Baldwin, “Americans have been lied to for years” (Há anos que mentem para os americanos)). O feudo a que ele se refere pode ser visto nos números: A disparidade entre o 1% mais rico da população dos EUA e os restantes 99% nunca foi tão grande. Os 400 norte-americanos mais ricos tem mais dinheiro que os 185 milhões mais pobres, juntos. Desde 2009, o 1% ficou com 95% da grana. No mesmo período, os cinco maiores bancos cresceram 30%. Os EUA estão batendo todos os recordes absurdos em sua história: número de pessoas vivendo na pobreza, número de pessoas dependendo de bancos de alimento, número de pessoas passando fome a noite e número de prisioneiros.
Mas tem coisa que não conseguimos ver em números, argumenta DeGraw. Juntos, os bilionários norte-americanos tem hoje estimados 50 TRILHÕES de dólares, mais estimados 11 TRILHÕES em contas escondidas no exterior. Ou seja, não estamos falando de bilionários e sim de trilhonários. Mas que diabos é um trilhão? Ultrapassa a capacidade de nosso cérebro de colocar em perspectiva. Não há régua que alcance. Mas ele tenta: Por estimados 40 BILHÕES, poderiamos acabar com a fome em todo o planeta.
Pausa. Por favor.
Um trilhão = Mil bilhões. O 1% dos EUA tem 50.000 bilhões. Com 40 bilhões, ou apenas 0,1% da grana do 1%, o mundo seria radicalmente diferente. Mas não é. Tem alguma coisa muito fora da ordem. Não falta dinheiro, não falta tecnologia. Falta consciência. E para DeGraw, a única coisa que ainda separa os EUA da revolução de cortar cabeças, é a propaganda midiática. Décadas atrás, Aldous Huxley e George Orwell a profetizaram como a grande arma opressora do futuro - que agora é o presente. O que ambos não criaram em suas distopias é o que pode ser a solução - e provavelmente tem sido na última década: A internet.
Um dos resultados imediatos e práticos da proposta revolução é então o lançamento do EvolveSociety, uma rede social recém fundada por David DeGraw junto com Steven Starr, produtor do documentário FLOW - For Love of Water. A EvolveSociety foi definida como “uma rede social livre de propaganda que não quer te vender”. Em tempos de espionagem brutal e generalizada e tentativas cíclicas de se matar a liberdade na internet - e também fora dela - é fundamental refletir sobre o que é esta internet que temos hoje, para nos darmos conta de que nada garante que sempre será assim.
Para criar um perfil de usuário da EvolveSociety, por enquanto é de graça. E sempre será se você se associar até 31/12/13. A partir daí, serão 99 cents por mês. O dinheiro, além de bancar os custos técnicos de uma rede social, gerará uma moeda interna, o evolve currency, que todos podem gastar e ganhar em suas atividades na rede. Diferente do facebook? Muito. Não apenas por estas questões mencionadas, mas porque o ES não pretende usar a lógica capitalista pra controlar o que e quem vê o que circula dentro da rede, enquanto o FB define uma série de parâmetros pra calcular o valor de cada pessoa ou página existente (leia-se a chance do facebook ganhar dinheiro de você).
Ou seja, no facebook, você não vê na sua página exatamente aquilo que seus amigos e páginas que você curte compartilharam, pois o facebook artificialmente diminui o alcance, principalmente das páginas, e depois oferece aos gerenciadores que paguem pra “aumentar” seu alcance. Mas na verdade estão querendo que o administrador de uma página que você já curtiu pague ao facebook pra você ver o que a página posta! E esta é a situação do Plantando Consciência por lá, por exemplo. E quanto cobra o facebook pra aumentar alcance? Pra nós eles gentilmente oferecem alternativas desde 11 até centenas de reais, para uma única postagem! Ou seja, quanto mais a gente gastar de nossos escassos recursos financeiros, mais gente verá o que estamos postando, mesmo que estejam incluídos aí pessoas que já curtiram nossa página. É o 1% $ugando os 99%. Indecente.
Ou seja, a grana interfere fortemente no que aparece mais nas telas dos milhões de usuários do facebook, diminuindo o verdadeiro impacto de cada pessoa/página ou postagem dentro da própria rede. Se somos contra a real acumulação de recursos planetários nas mãos de 1% dos seres humanos, como podemos aprovar uma plataforma de comunicação global que utiliza esta mesma acumulação pra guiar o que será “manchete”? Não dá.
Mas o desafio do EvolveSociety é obviamente enorme, e se dará certo não há como saber. Mas há como contribuir com este ou aquele modelo, simplesmente escolhendo qual site você usa. A mudança então não diz respeito apenas a quantos ou quais amigos seus estão usando cada uma dessas opções, nem quanto pode custar ao seu bolso diretamente, mas quais influências você apoia que direcionem o fluxo de informação. Enquanto o facebook prioriza aquilo que dá lucro pra ele, o ES quer priorizar aquilo que os usuários considerarem útil. Como mencionei em outro lugar, o FB ta mais pra pirâmide e o ES mais pra rede. Todo e qualquer usuário, ao nascer no ES, ganha 10 moedas, e com o uso da rede (curtidas, compartilhamentos, eventos, etc) poderá ganhar mais dessa moeda social, e com ela inclusive pagar sua irrisória mensalidade de 99 centavos, se houver…
Ainda assim, não sejamos ingênuos. Uma eventual substituição do FB pelo ES não vai mudar o mundo. O que vai mudar é o despertar da consciência, através da experiência de cada um. E isto, ao regar continuamente um pensamento global e adubar ações locais, que poderá fazer a diferença. Uma eventual debandada coletiva do FB poderia ajudar a desperta-la. No intuito de minimizar em algo a disparidade David x Golias entre o ES e o FB, Plantando Consciência se tornou a primeira página da categoria “Mind, Health and Spirit” (Mente, saúde e espírito) dentro do ES, mas seguiremos tb no FB, sempre nos recusando a pagá-los para nos comunicar com aqueles que querem nos ouvir.
E antes que me rotulem de utópico, ingênuo, naive y otras cositas más que escuto por aí, encerro citando o poeta Rainer Maria Rilke numa frase que me identifico muito:
“Não vivo em sonhos, mas contemplo uma realidade que, talvez, seja o futuro”
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