Praticamente no centro do cérebro humano, numa glândula chamada pineal, é produzida uma substância chamada DMT (dimetiltriptamina). Em altas quantidades (maiores do que as encontradas normalmente no cérebro), o DMT é altamente psicoativo. Algumas espécies de plantas, especialmente na Amazônia, possuem essas quantidades mais elevadas de dimetiltriptamina em sua composição. Porém, se ingerida sozinha, a molécula do DMT é metabolizada por uma enzima no nosso organismo (Monoamina Oxidase, ou MAO), e perde seu efeito.
Povos indígenas da América do Sul e Central descobriram com uma precisão científica há centenas, quiçá milhares de anos, que a combinação de duas espécimes vegetais distintas resulta numa bebida capaz de anular a quebra das moléculas e permitir que o efeito da DMT seja sentido em sua plenitude. Ayahuasca é o termo de origem quichua (que pode ser traduzido curiosamente como "cipó dos mortos") dado à esta bebida resultante da combinação de alcalóides inibidores da MAO com DMT. Na prática, é a infusão do cipó caapi (que contém inibidores da MAO) e das folhas do arbusto chacrona (ou outras espécimes que contêm DMT), ambos originais da Amazônia.
Neste documentário originalmente veiculado pela BBC, o ativista australiano Dean Jefferys mergulha com a esposa grávida e uma filha pequena em uma expedição pelo Equador, de onde é guiado por um xamã pelos caminhos sagrados das plantas e seus efeitos sobre a psique humana. O filme tem um ponto forte em não se restringir à temática espiritual – resistindo a cair na mera apologia do uso do chá -, ao abordar questões políticas e sociais relevantes, como os conflitos entre a indústria do petróleo, com sua gana "civilizatória" (com a qual entra sem pedir licença em território - e subsolo - estrangeiro), e os índios, que defendem-se e até antecipam os movimentos do invasor com a ajuda da "sabedoria das plantas".
Para os índios, aliás, as plantas de poder seriam meros porta vozes para os ensinamentos da Mãe Natureza, que fala a seu modo através de todos os seus elementos - animais, plantas, solo e insetos. Tudo espantosamente sintonizado ao conceito de Gaia, cunhado pelo cientista James Lovelock na década de 70 para explicar o planeta Terra como um organismo vivo, que torna-se cada vez mais atual e presente na comunidade científica contemporânea.
Contrariando o avanço do capitalismo petrolífero e da violenta guerra às drogas, que fazem da ayahuasca substância proibida em alguns países desenvolvidos, cientistas e ativistas (dentre os quais o "guru" psicodélico Terence Mackenna, entrevistado em Iquitos pouco antes de morrer) comentam o tema e protestam pacificamente por liberdade de expressão e de direitos sobre seus próprios corpos e mentes. E o cineasta descobre coisas incríveis sobre a apurada percepção de si e dos outros que os índios dominam.
O filme é uma rápida iniciação em um assunto cuja profundidade só pode ser vivenciada pessoalmente, mas cumpre bem com o seu papel, ajudando a desmistificar o conceito de "droga de maluco" ou de culto religioso que permeia a idéia dos rituais que fazem uso da combinação de plantas. No Brasil, a ayahuasca é popularmente - e erroneamente - conhecida como "Santo Daime", na verdade nome de um culto de origem cristã que faz uso do "chá" de ayahuasca em seus rituais (e que tem uma pontinha no filme).
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